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1985, Argentina

'Argentina, 1985' é o  mais recente candidato hermano ao Oscar. Torço para que levem a estatueta no mês que vem. Ricardo Darin, monstro sagrado do cinema argentino, interpreta  Julio 'Loco' Strassera, promotor responsável por levar a julgamento e à cadeia alguns dos militares responsáveis por crimes durante a ditadura naquele país.  Enquanto obra de arte o filme não acrescenta muito, no sentido de que não há inovação ou algo que se destaque. Até porque isso não é necessário. A importância histórica daqueles eventos é mais que suficiente para tornar o filme relevante, e revisitar um momento que talvez já começasse a ser esquecido e eternizar no cinema a figura do 'Loco' são razões suficientes para que ele venha a ganhar o Oscar, como ganhou há pouco o Globo de Ouro. É o tipo de filme que falta ao Brasil, pois por aqui os filmes sobre a ditadura militar (embora, confesso, talvez eu nem tenha propriedade pra comentar sobre o cinema brasileiro, que é fraquinho, fraq...
Postagens recentes

O Defunto (Pedro Nava)

A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpo evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos, só por piedade consigo, procuram apagar no Morto o grande castigo da Morte. Não quero caixão de verniz ou os ramalhetes distintos, os superfinos candelabros e as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano. Dêem-me as flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças, como enormes salva-vidas, com fitas negras pendentes. E descubram bem minha cara: que a vejam bem os amigos. Que a não esqueçam os amigos que ela perturbe os amigos e que lance nos seus espíritos a incerteza, o pavor, o pasmo... E a cada um leve bem nítida a idéia da própria morte. Descubram bem esta cara! Descubram bem estas mãos: Não se esqueçam destas mãos! — Meus amigos! Olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, em que sexos se demoraram seus lábios quirodáctilos? Foram nelas esboçados todos os gestos malditos: até furtos fracassados e interrom...

Os trens de Mussolini

       Imagem Simon Schwartzman  O que está em disputa hoje é quem defende ou trabalha para romper o consenso sobre os direitos humanos e o regime democrático. Simon Schwartzman, O Estado de S.Paulo 14 de outubro de 2022 Lembro-me como se fosse hoje. Era aluno num conhecido ginásio em Belo Horizonte, e, entre uma aula e outra, numa roda de conversa, o professor de Filosofia, ex-integralista, falava entusiasmado sobre as vantagens do fascismo. Eu ouvia espantado, e disse que não poderia concordar com aquilo, que eu vinha de uma família judia e muitos meus familiares haviam sido assassinados nos campos de concentração. “Ah, entendo”, disse o professor, “então você tem um problema pessoal com isso”. Eram os anos da guerra fria, em que os Estados Unidos e a União Soviética e seus seguidores disputavam não somente a hegemonia internacional, mas também o lugar de quem melhor encarnava os valores dos que haviam se unido para conter o monstro do nazifascismo, proclamado...

Piazzolla: Obras Desconocidas

     Até sabia que o maestro tinha formação clássica, mas não imaginava que tivesse recebido algum destaque. Matéria do Estadão de 30/09/2022. Abaixo, link para o Spotify. Eu vou é mesmo atrás do CD na próxima ida a Buenos Aires. https://open.spotify.com/album/6dMpqHm0g4DXegIGaKiV59 Obra erudita de Astor Piazzolla é resgatada por pianista     Quando sua  Sinfonietta para Orquestra de Câmara Opus 19  foi escolhida pela crítica argentina como a melhor obra erudita de 1952,  Astor Piazzolla , então com 32 anos, sentiu que seu futuro estava definido: seria um compositor clássico. Ganhou bolsa para estudar em Paris com Nadia Boulanger, a mestra preferencial de grandes músicos do mundo inteiro, de Aaron Copland a Leonard Bernstein, entre os norte-americanos, Almeida Prado e Egberto Gismonti entre os brasileiros. Àquela altura, já acumulava uma produção clássica, ou erudita, consistente. Seu lado “erudito”, todavia, ficaria soterrado por sua re...

Such a long way… just to be here, just to be here.

       Não há praticamente nenhuma informação sobre Pa'at, o trilheiro de 71 anos que completou a  Pacific Crest Trail em uma jornada do início ao fim. Nem mesmo sobre o feito em si: quanto tempo ele levou, como foi a preparação, basicamente nada. O que há é o vídeo de sua chegada, que viralizou. Pa'at começa a cantar alguns versos ao enxergar o marco do final da trilha. Foram longos 4260 km, cruzando 25 florestas e 7 parques nacionais, cruzando os EUA de sul a norte.      Such a long way indeed.

Capitão Fantástico

É um filme antigo já, de 2016. Vi há pouco. Em resumo, o personagem de Viggo Mortensen vive com seus 6 filhos no meio da floresta. Vivem do que plantam e caçam. A rotina da família inclui treinamento físico com hora marcada, treino de lutas, técnicas de sobrevivência e as condições mais extremas que se pode imaginar, considerando principalmente que os dois menores têm 10 anos ou menos.  Mas nem só da vida rústica, quase selvagem, vivem os Cash. Ben e sua mulher, Leslie, educam as crianças de forma bastante aberta e num alto nível de exigência. Quer dizer, Leslie educou, no tempo pretérito. Ela praticamente não aparece no filme, só se sabe que ela está em tratamento contra a depressão. Vinda de família rica, está aos cuidados da família. Retomando...há uma citação de uma declaração dela, onde ela se mostra maravilhada com o 'projeto' da família, onde, nas palavras dela, eles estavam criando os filhos como autênticos reis-filósofos, à imagem daquilo que Platão descreveu n'A R...

O Cavaleiro Preso na Armadura

 -Sim - replicou Sam -, você colocou uma armadura invisível entre você e seus sentimentos verdadeiros. Ela está em você há tanto tempo que se tornou visível e permanente.  -Talvez eu tenha realmente escondido meus sentimentos - disse o cavaleiro. -Mas eu não podia simplesmente dizer tudo que me vinha à cabeça e fazer tudo que tinha vontade de fazer. Niguém iria gostar de mim. Ao pronunciar essas palavras, o caveleiro parou abruptamente, compreendendo que vivera toda sua vida de maneira a fazer com que as pessoas gostassem dele. O Cavaleiro Preso na Armadura - Robert Fisher (Livrinho fraquinho, pra ser sincero. Não é nada do que esperava. Ou melhor, quase nada. Tem coisas importantes, mas ditas de maneira quase juvenil. Talvez tenha sido a maneira de o autor - falecido há mais de 10 anos - ficar acessível a um público médio. Era dramaturgo, com extensa produção de séries e com alguns espetáculos na Broadway. Sei lá, deve agradar muita gente, pois foi traduzido para inúmeras lín...